EDUCAÇÃO E ARTE: SONHAR, CONSTRUIR, REALIZAR.

Sobre o ABA

Projeto premiado com a XI edição do Prêmio Arte na Escola Cidadã do Instituto Arte na Escola/ Fundação IOCHPE como a melhor iniciativa em artes do ensino médio em 2010.
O Auto da Barca Amazônica é uma iniciativa em ensino de artes para alunos de escolas públicas.O espetáculo foi criado em 2007 pelos professores Jaqueline Souza , artista plástica e cênica e Paulo Anete, artista plástico e carnavalesco.A iniciativa tem por objetivos trabalhar a linguagem cênica (teatro, dança circo e cenografia) que resulta na produção de um grande cortejo que sai pelas ruas da cidade de Abaetetuba,localizada na região do baixo Tocantins, estado do Pará
Já temos 4 edições e estamos preparando a edição 2011.Fiquem à vontade e divulguem nosso trabalho.

Palavras chave:
educação; arte; cortejo;carnaval;circo;teatro;dança

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares




“A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais à da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que se me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro – tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, mal disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!”
(27/06/1930; em “Livro do Desassossego”)
Fernando Pessoa

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Encontro Internacional de Artes Cênicas em Belém

Simioni abre encontro internacional em Belém

Carlos  Simioni
O fundador do Grupo Lume e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp (SP), e mais 19 atores brasileiros e internacionais participam, a partir desta segunda-feira, 16, do Conexão Belém Internacional - III Encontro do Núcleo de Treinamento em Dança Pessoal do ator, que acontecerá até dia 27 de janeiro, em vários espaços da cidade. A abertura para o público será às 19h, no SESC Boulevard. 
Natural de Curitiba (PR), radicado em Campinas, Carlos Simioni foi o primeiro discípulo de Luís Otávio Burnier, com quem fundou o LUME em 1985 e onde desde então trabalha como ator-pesquisador. 
É curador do ECUM – Encontro Mundial de Artes Cênicas (desde 2004) e coordenador do Lume - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp. Sob orientação de Burnier, ele desenvolveu pesquisas nas áreas da antropologia teatral e cultura brasileira e trabalhou na elaboração, codificação e sistematização de técnicas corpóreas e vocais de representação para o ator. 
O Núcleo de Treinamento em Dança Pessoal do Ator surgiu em 2010, com o curso “Princípios da Dança Pessoal para o trabalho do ator”, ministrado por ele. Na ocasião, reunindo 19 atores-dançarinos das cinco regiões do Brasil e da Costa Rica, Panamá e Estados Unidos da América, o curso tinha apenas um mês de atividades. No entanto, os atores sentiram necessidade de aprofundar a pesquisa elaborada e constituir um grupo permanente de experimentação e reflexão sobre a Dança Pessoal. Assim é realizado em janeiro de 2011, o segundo encontro deste grupo. O terceiro chega agora em Belém. 
Em duas semanas divididas entre os treinos do grupo e programação cultural e workshops destinados à comunidade local profissional, amadora ou curiosa, o grupo de Simioni pretende dividir conhecimentos com o público, além de aprofundar seu trabalho, ampliando seu treinamento pessoal. A abertura para o público será às 19h, no Centro Cultural Sesc Boulevard, com a demonstração de “Prisão para a Liberdade”. 
Nesta demonstração, Simioni abordará sua trajetória no LUME Teatro. Em 26 anos de trabalho, Simioni vem trabalhando o treinamento físico, construção das técnicas de expansão e dilatação do corpo no espaço e no tempo, além do treinamento vocal no encontro com outros Mestres que os ajudaram na elaboração de personagens, cenas e espetáculos. 
A Dança Pessoal é uma técnica de treinamento autoral baseada no exercício da presença cênica, os impulsos e as qualidades de movimento, desenvolvida por Burnier e Simioni. A idéia era elaborar uma técnica para o ator brasileiro, levando em consideração sua cultura e particularidades, apropriando-se das referências do teatro mundial e ensinando suas descobertas no Brasil e internacionalmente. 
Desde então a técnica vem sendo sendo investigada dentro do Lume Teatro, mas dentro deste período, esta é a primeira turma formada fora do núcleo, a receber orientação para continuar desenvolvendo a pesquisa para seu processo autoral, de forma a multiplicar o conhecimento já amadurecido em mais de duas décadas. 
Os interessados nas oficinas e workshops devem entrar em contato pelo e-mail (conexaobelem@gmail.com), apontando a oficina de seu interesse e anexando currículo resumido. Veja abaixo a descrição das oficinas e a programação culturalcompleta. 
Grupo LUME em Shi-Zen, 7 Cuias
OFICINAS
O Ator Ativo, com Marcos Rangel Koslowski - A oficina propõe o treinamento de elementos técnicos para ativar o corpo e suas energias, a fim de chegar a um estado de presença. 
Esse treinamento também será utilizado para a construção de um repertório físico de ações. Serão trabalhados os seguintes elementos técnicos: base, deslocamento espacial, fragmentação corporal, variações de tempo, equilíbrio e desequilíbrio, ações (empurrar, puxar, saltar, rolar), oposições, arremessos, resistência. 
Técnica Michael Chekhov para o ator, com Ray Moscarella - Michael Chekhov, considerado um dos maiores atores da história teatral contemporânea, foi o criador de uma técnica consagrada que visa desenvolver no ator o máximo de sua capacidade criativa e liberdade artística para compor seus personagens. A oficina intensiva deve abordar e colocar em prática os principais elementos desta técnica: movimentos arquetípicos, gesto psicológico, atmosfera, trabalho em grupo. 
Voz e sensação, com Janko Navarro - É uma oficina experimental onde se utiliza como território básico de criação, o ponto de inspiração, o apoio, as relações físicas do corpo/voz e o pensamento musical. 
Carlos Simioni
PROGRAMAÇÃO
CONEXÃO BELÉM INTERNACIONAL 
SEGUNDA-FEIRA, 16
Abertura - 19h - Centro Cultural SESC Boulevard 
Demontração “Prisão para a Liberdade”. 
TERÇA-FEIRA, 17
Manhã: 09h às 12h - Oficina (Janko – Costa Rica)
Local: Etdufpa
Noite: 20h – Bate Papo sobre Clown 
Local: Casa dos Palhaços 
QUARTA-FEIRA, 18 
Manhã: 09h às 12h - Oficina (Janko – Costa Rica) 
Local: ETDUFPA 
QUINTA-FEIRA, 19 
Manhã: Oficina (Janko – Costa Rica)
Local: ETDUFPA 
Noite: 20h – Palhaçadas de Quinta
Local: Casa dos Palhaços 
SEXTA-FEIRA, 20 
Manhã: Oficina (Ray - Panamá)
Local: ETDUFPA 
Noite: 20h - Bate-papo Camilo
Local: Centro Cultural Sesc Boulevard 
SÁBADO, 21  
Manhã: 10h - Intervenção de Clowns
Local: Ver-o-Peso 
Noite: 20h - Show Musical: Rodrigo Carinhana (SP) e Rodrigo Braga (PA) 
Local: Centro Cultural Sesc Boulevard 
SEGUNDA-FEIRA, 23  
Manhã: 09h às 12h - Oficina (Ray - Panamá) 
Local: ETDUFPA 
TERÇA-FEIRA, 24 
Manhã - 09h às 12h - Oficina (Marcos - POA) 
Local: ETDUFPA 
QUARTA-FEIRA, 25 
Manhã: Oficina (Marcos - POA) 
Noite: 20h - Espetáculo “El Funeral” 
Local: Teatro Claudio Barradas 
QUINTA-FEIRA, 26 
Manhã: Oficina (Marcos - POA) 
Noite: 19h - Demonstração do Grupo 
SEXTA-FEIRA, 27 
Noite: 19h – Espetáculo Corpo Santo – Cia. de Teatro Madalenas 
Local: TUCB – Teatro Universitário Cláudio Barradas 
21h – A Festa na Amazônia (despedida) 
(com informações enviadas pelo encontro e fotos do blog LUME Teatro)

Via Luciana Medeiros 

domingo, 2 de outubro de 2011

O Espelho no Espelho - Michael Ende






CHOVIA INTERMINAVELMENTE NA SALA DE AULA. Fedia a pântano, pois as tábuas do
assoalho se haviam decomposto em turfa devido à eterna umidade, as paredes estavam cheias de bolor e em
muitos lugares cresciam enormes teias de salitre nevado. Os vidros das três janelas altas e estreitas eram
compostos de material fosco para que os alunos não tivessem sua atenção desviada pela possibilidade de olhar para fora.
A porta do corredor da escola havia sido pintada várias e várias vezes, e tinha a cor de um espinafre
velho e choco. Podia-se ler ainda, no quadro-negro, do lado frontal do aposento, os restos de uma fórmula
qualquer: ... é um ponto no vácuo... vai ao tempo t na velocidade da luz... d... dt...
Na alta cátedra, negra como breu, diante da parede do quadro, jazia como que em câmara ardente o
corpo inerte de um rapaz de provavelmente uns quatorze anos. Ele estava vestido com a malha justa de um
equilibrista, coberta aqui e ali com remendos. A fita branca que trazia na cabeça mostrava na testa uma
mancha vermelha redonda. Evidentemente que se tratava de um sinal, pois era bem regular, coisa que não
poderia ter ocorrido com perda de sangue.
Nos bancos escolares estavam sentados apenas seis alunos – dois homens, duas mulheres e duas
crianças – cada qual afastado do outro, cada um por si. Todos estavam debaixo de seus guarda-chuvas,
escrevendo ou com olhar perdido à sua frente. Bem na frente estava sentado debaixo de um guarda-chuva
negro um homem de idade indefinível, vestido de maneira correta. Seu rosto parecia pálido sob o chapéu preto
e engomado e, com exceção dos olhos um pouco esbugalhados e aquosos, ele não apresentava traços
característicos. À sua frente, no púlpito, havia uma pasta. Próximo da porta estava sentado um homem
barbudo, de óculos, vestido com um guarda-pó branco. Ele segurava um guarda-chuva de material plástico
transparente e, de tempos em tempos, voltava a olhar para seu relógio de pulso. No lado da janela, uma
mulher muito gorda aboletara-se no banco pequeno demais para seu corpo, de tal modo que seus enormes
seios estavam caídos sobre o púlpito. Seu guarda-chuva era florido. Algumas fileiras atrás dela, estava sentada
uma jovem senhora de pernas longas, delgada, com um vestido de noiva, debaixo de um guarda-chuva branco
com bordas rendadas. Bem atrás, na última fileira, estavam sentadas a duas crianças. Uma delas, uma
menininha, tinha um guarda-chuva de papel oleoso. Seus cabelos eram longos e negro-azulados, e os olhos
eram amendoados e escuros como a noite. O garoto, do outro lado, parecia bem desleixado. Ele era pequeno e
tinha as faces estreitas e bem sujas. Suas roupas estavam rasgadas e seu nariz escorria a todo o momento, ele o
enxugava na manga da camisa. Nas costas ele trazia asas muito grandes e brancas, que estavam úmidas de
chuva, desgrenhadas e bem caídas. Seu guarda-chuva era composto apenas de uma armação vazia, na qual
pendiam alguns farrapos de coloração azul clara.
Todos estavam calados, pois era terminantemente proibido bater papo. Somente a chuva caía
ininterruptamente. Finalmente, o homem de guarda-pó branco, após mais uma olhada em seu relógio,
inclinou-se na direção do sujeito vestido cor-retamente e perguntou aos sussurros:
– Desculpe-me, por favor, mas será que o senhor sabe quando é que chega o professor?
A pessoa a quem ele se dirigiu levou o dedo à boca. Depois balançou a cabeça e, após alguns instantes,
segredou:
– Nunca se sabe quando ele vem ou se ele porventura vem. Mas a droga é que ninguém está aqui
quando ele vem.
O homem de guarda-pó branco balançou a cabeça suspirando.
– Foi o que imaginei. Posso perguntar por que o senhor está aqui?
O outro fez-lhe um sinal e olhou à sua volta na sala. Mais uma vez ele deixou passar alguns minutos
antes de responder:
– Quero completar meus conhecimentos de matemática. A propósito, sou funcionário público.
– Ah – Disse o homem barbudo de guarda-pó branco. Mas qualquer um notava que essa informação não
o deixara satisfeito.
Ele ficou olhando para seu relógio durante um bom tempo. Em seguida, escreveu alguma coisa em um
pedaço de papel e estendeu-o para seu companheiro de conversa.
Quer dizer que o senhor está aqui voluntariamente?, foi o que este leu. Ele virou o papel e escreveu nas
costas: Sua pergunta não vem ao caso. Estou cumprindo minha obrigação.
Quando o homem de guarda-pó branco leu a mensagem, disse em voz semi-alta e com tom de voz
rebelde.
– Aliás, eu não estou aqui de livre e espontânea vontade. Sou médico, mas me cassaram a licença por
causa de uma estúpida ninharia. E agora eu preciso começar do começo. Acho isso terrível.
– Tudo começa de novo do princípio – respondeu friamente o homem vestido de maneira correta. – A
vida é uma repetição. Com que direito o senhor quer ser a única exceção?
– Não conversem tão alto – gritou a noiva à meia voz para os dois. – Podem ouvir vocês, aí todos nós
teríamos de ficar de castigo depois da aula.
– Se vocês me perguntarem – a gorda intrometeu-se na conversa – eu acho que a gente simplesmente
devia ir para casa. Estou com fome.
O funcionário se virou na direção dela e a examinou com seu longo e vazio olhar.
– Não é possível – disse ele friamente –, a porta está fechada.
Seguiu-se novamente um longo silêncio. Somente a chuva caía continuamente.
– Eu gostaria de saber – murmurou para frente o garoto com as asas úmidas de chuva – que tipo de
tempo está fazendo lá fora. Talvez já sejam férias lá fora.
A menininha com olhos amendoados sorriu para ele e sussurrou por trás das mãos levantadas:
– Lá fora é o paraíso, mas não podemos abrir as janelas.
– O que é lá fora?
– O pa-ra-í-so
– Não conheço. Que negócio é esse?
– Você não conhece?
– Não, nunca ouvi falar.
A menina deu uma gargalhada.
– Não acredito nisso. Então você não é nenhum anjo?
– Puxa, que coisa é essa? – perguntou o garoto.
A menina de olhos amendoados ficou olhando para frente durante algum tempo e depois sussurrou:
– Olha, na verdade eu também não sei o que é o paraíso.
– Então por que é que você fala nisso? – disse o garoto.
– Mas eu sei que ele está sempre ao lado – prosseguiu a menina. – Todo mundo sabe disso. Só existe
uma parede no meio, muitas vezes de pedra, às vezes de vidro e também tem de papel-seda. Mas está sempre
do lado.
– Então a gente não podia simplesmente quebrar o vidro? – propôs o garoto, corando com a própria
audácia. – Isso é, se é que vale mesmo a pena.
A menina encarou-o com um ar triste e sussurrou:
– De nada adiantaria. Ele está sempre do lado, portanto nunca está onde nos encontramos. Se
estivéssemos do outro lado, ele já não estaria mais lá. Mas agora ele está lá. Com toda certeza.
– Fiquem quietos! – gritou a noiva com voz reprimida. – Acho que alguém está vindo.
Todos ficaram escutando, mas só se podia ouvir a chuva.
O médico levantou-se e foi à cátedra, na qual jazia o rapaz com roupa de equilibrista como se estivesse
em um catafalco. Ele precisou subir na cadeira atrás da cátedra para poder observá-lo.
– Não seria melhor se o senhor fizesse seu dever? – perguntou o funcionário público levantando a
sobrancelha. – Talvez este seja meu dever – respondeu nervoso o médico.
Durante algum tempo ele ficou examinando o rapaz, calado, experimentou-lhe o pulso, abriu
cuidadosamente com o polegar e o indicador um dos olhos. Apalpou aqui e ali e finalmente balançou a cabeça
desanimado. Desceu e foi se sentar em seu lugar.
A velha gorda, que prestara atenção nele com crescente curiosidade, gritou nesse momento tão alto, que
todos estremeceram chocados:
– A doença! Diga pelo menos de que ele morreu!
– De chuva! – respondeu o médico de modo brusco.
– Talvez – sussurrou a menina de olhos amendoados para o rapaz com as asas encharcadas –, talvez o
paraíso seja onde nunca chove.
– Ou pelo menos onde não chova sempre – disse o rapaz mais para si mesmo. – Onde só chova de vez
em quando.
– Agora você se lembra? – segredou a menina.
Mas o garoto não respondeu, a única coisa que fez foi ficar olhando pensativamente para frente.
A menina se levantou e, com passos tímidos, caminhou até a cátedra. Ela escalou a cadeira. Dali, foi até
o rapaz com roupa de equilibrista. Agachou-se ao seu lado, tomou-lhe a cabeça no colo e segurou o guardachuva
de papel sobre ele. Todos ficaram olhando com admiração.
– Mas, e se o professor aparece... – gritou medrosa a noiva.
– Talvez ele seja o professor – disse o jovem com asas, levantando-se. Todos se viraram na direção dele.
– Podia ser – murmurou ele, ficando vermelho de novo. Ele foi até a frente com as asas arrastadas,
galgou a cátedra com decisão e ficou segurando a armação de seu guarda-chuva em cima do corpo esticado do
garoto.
– Besteira! – disse o funcionário com desdém.
– Não é coisa nenhuma! – respondeu teimosamente o jovem. – Ele já começa a respirar.
O médico se levantou, tornou a galgar a cadeira e colocou a mão no peito do rapaz, curvando-se sobre
sua boca para escutar.
– Dois não bastam – gritou então – tragam mais guarda-chuvas!
Todos foram à frente e esticaram protetoramente os guarda-chuvas sobre o rapaz. A menina de olhos
amendoados inclinara-se sobre sua cabeça e, com cuidado, retirou-lhe a fita com a mancha vermelha circular.
Seus longos cabelos negros envolveram os dois rostos.
De repente, o garoto com roupa de equilibrista respirou fundo, tossiu algumas vezes e se sentou.
– Obrigado – disse ele olhando para os rostos que se aglomeravam à sua volta. – A coisa, dessa vez, foi
longe. Que estão fazendo aqui?
– Estamos esperando o professor – respondeu a noiva.
– Por acaso não é você? – perguntou o rapaz de asas.
– Ora, escutem uma coisa – disse o rapaz –, será que eu pareço um professor?
– Nós não sabemos como é a aparência dele – explicou o médico.
– Por favor, não fale em nome de todos nós! – O funcionário público o pôs em seu devido lugar. – Estou
aqui há muito mais tempo do que o senhor.
O rapaz com roupa de equilibrista soprou algumas gotas da ponta de seu nariz e sorriu.
– Bem, a verdade é que ele ainda não chegou aqui. Nós devíamos tentar sair daqui. Ou será que vocês
estão gostando?
– Não se trata disso – replicou o funcionário –, também existe uma coisa chamada senso de
responsabilidade. Ninguém tem o direito de fugir da realidade, muito menos quando esta é desagradável.
O rapaz com roupa de equilibrista ficou balançando as pernas na cátedra.
– Vocês já notaram – perguntou ele suavemente – que basta fechar os olhos por alguns minutos?
Quando a pessoa os abre de novo, se encontra numa outra realidade. Tudo muda continuamente.
– Quando a gente fecha os olhos – disse o garoto com as asas encharcadas – a gente morre.
– Está bem – disse o rapaz de cima da cátedra – dá no mesmo. Nós também mudamos, já que não há
nenhum inconveniente. Eu era um outro e, de repente, sou esse daqui.
A mulher gorda assentiu.
– Justamente, meu jovem. E que foi que você lucrou com isso?
– Nada – respondeu o rapaz –, por que é que a pessoa teria de lucrar alguma coisa?
– De qualquer modo – esclareceu o funcionário – eu vou continuar aqui e informarei ao professor tudo
que aconteceu aqui, palavra por palavra.
– Como quiser – disse o rapaz saltando da cátedra –, eu só estou aqui de passagem.
– Mas não se pode sair daqui – disse a noiva. – A porta está fechada.
– Pode-se sair de qualquer lugar – replicou o rapaz –, quando se consegue mudar o sonho.
– Como é que isso funciona? – perguntou a menina de olhos amendoados. E o rapaz de asas
acrescentou:
– O que significa mudar o sonho?
– Tudo isso é besteira! – gritou o funcionário.
– Mudar o sonho – disse o rapaz com roupa de equilibrista – significa inventar uma nova história e
depois entrar dentro dela. Afinal de contas, o que é que vocês aprendem aqui nessa escola, se nem ao menos
sabem disso?
– Onde foi que você aprendeu isso? – a mulher gorda quis saber.
– Com um mudador de sonhos que eu mesmo inventei – respondeu o rapaz.
– E você consegue mesmo mudar sonhos? – perguntou a menina ofegante. – E você pode ensinar isso
para nós? – Claro! – replicou o rapaz. – Aliás, sozinho é a maneira mais difícil. De dois fica bem mais fácil. E
quando muitas pessoas fazem a coisa juntas, então aí sempre se consegue. Todos os verdadeiros mudadores de
sonho sabem disso.
– Então como é que a gente deve fazer para inventar uma nova história? – procurou se informar a noiva.
– A maneira mais fácil – explicou o rapaz – seria se todos nós representássemos uma peça de teatro.
– Ai, meu Deus do céu – lamentou-se a mulher gorda –, eu não consigo decorar muito texto.
– Para quem devemos representar? – perguntou o médico.
– Para nós mesmos. Nós somos platéia e atores ao mesmo tempo. E o que vamos representar é a
realidade.
– Mas o que devemos representar? – quis saber o garoto com asas.
– A gente nunca sabe antecipadamente – respondeu o rapaz. – A gente simplesmente começa.
– Mas isso pode ser um tremendo fracasso – opinou a noiva. – E depois, que será de nós!
O rapaz deu de ombros.
– Aquele que já quiser saber com antecipação é porque não sabe mudar sonhos.
– Mas será que a gente não precisaria de um palco? – perguntou a menina com olhos amendoados. – E
uma cortina?
– Incondicionalmente! – disse o rapaz com roupa de equilibrista. Ele pegou sua fita de cabeça empapada
de chuva e, enquanto a menina o protegia com o guarda-chuva de papel, foi ao quadro-negro e com o lenço
limpou cuidadosamente os últimos vestígios da fórmula. Em seguida, virou-se para os outros.
– Vocês poderiam secá-lo?
– Não vai adiantar muito – opinou o médico –, daqui a pouco a chuva vai encharcá-lo de novo.
– Bastam alguns minutos – explicou o rapaz. Ele abriu a gaveta da cátedra e encontrou ali dentro alguns
pedacinhos de giz colorido. Nesse meio tempo, os outros haviam secado – até onde fora possível – o quadronegro
com seus lenços de bolso ou mangas de paletó. O médico chegara a tirar o guarda-pó branco para
utilizá-la como esfregão.
– Já basta – disse o rapaz. Em seguida, com uns poucos traços, ele pintou um palco de teatro sobre o
quadro-negro, a cortina estava puxada para cima à esquerda e à direita, e o cenário atrás mostrava um longo
corredor cheio de portas.
– A gente precisa deixar todas as possibilidades em aberto – disse o rapaz, enquanto fazia os últimos
traços –, atrás de uma dessas portas nós vamos encontrar alguma coisa que nos agrade.
E, com um salto, ele pulou para dentro do quadro que acabara de pintar. Os outros ficaram olhando
arrebatados, enquanto ele ficava passeando de um lado para o outro no palco.
– Venham! – gritou ele. – Rápido! A chuva!
Primeiro, subiu no palco o menino com asas, em seguida foi a vez da menina de olhos amendoados.
Depois dela veio a noiva. A mulher gorda precisou ser empurrada por trás pelo médico e puxada pela frente
por aqueles que já lá estavam. Em seguida, o próprio médico pulou. Somente o homem corretamente trajado
continuou ali embaixo, com seu guarda-chuva preto, sem conseguir tomar uma decisão.
O rapaz com roupa de equilibrista inclinou-se mais uma vez para fora do quadro e estendeu-lhe a mão.
– O senhor não está querendo vir junto? – perguntou ele.
O homem balançou a cabeça.
– Acho que não acredito nisso.
– O senhor não precisa acreditar. Entre simplesmente.
– Mas... – o funcionário público deu um passo atrás – não sei o que vocês pensariam de mim. Não me
encaixo na peça de vocês.
– Nós não pensamos nada do senhor – respondeu o rapaz –, mas todo mundo se encaixa na nossa peça.
Sobre o quadro já corriam por toda parte algumas gotas de chuva, tornando-o indistinto.
– Eu preferiria não ir – disse o homem.
– Que pena – gritou o rapaz, em seguida ele se inclinou como um artista de circo. – Passe bem!
A cortina foi baixando pouco a pouco nos dois lados. Então, no último instante, o homem tomou
coragem, dobrou o guarda-chuva, enfiou a pasta debaixo do sovaco, segurou o chapéu e saltou por entre a
abertura da cortina, que se fechou por trás dele.
Pouco a pouco a chuva contínua foi apagando a imagem do quadro-negro.

Tempo de Refletir

`´É hora de parar, calar, meditar e refletir sobre nossas ações daqui pra frente. O momento não está favorável para nós, porém temos algo que ninguém nunca poderá nos tirar: esperança.
 Vamos levantar a cabeça e procurar soluções. Não deixemos que a política do descaso contamine nossas mentes e corações.Estamos juntos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre o meu Repúdio...

   Tenho tentado manter a minha integridade e luto para que Abaetetuba possa mudar significativamente a sua triste realidade, faço a minha parte, embora essa pequena parte incomode muita gente.Apesar de todo o esforço, as pessoas que insistem em me atacar de modo covarde, são as mesmas que nunca fizeram nada pela localidade.

    Talvez eu tenha fracassado vendo nos olhos tristes do garotos o espelho da minha dor. Não é a primeira derrota, nem será a última.Parafraseando Felício Pontes e Darcy Ribeiro digo que: 
  "Fracassei em quase tudo que fiz. Tentei defender os meninos dos rios, e minha partida me mostra que não consegui. Tentei defender as tradições e as histórias contadas e a arbitrariedade mostra que não consegui. Tentei reviver a cultura de um povo, e a burocracia, a intolerância, a falta de vontade política insistem em mostrar que fracassei. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".
É com muita dor e com lágrimas nos olhos que posto isso no dia de hoje.

Evoé ao Auto da Barca Amazônica.
                                                                                                    Jaqueline Souza

sábado, 24 de setembro de 2011

Em Homenagem Oração ao Tempo




     Em homenagem aos amigos que lutam para mostrar que a vontade comum move montanhas.
Especialmente para Paulo Anete. Murilo Nascimento, Jones Gomes,Lúcio Lavareda, Kaio Cardoso , Karina Cardoso, João Vitor. Alberto Valter, Nazinha Ferreira, Angela Gomes, Miguel Caripuna, Miguelina Bitencourt, Giovane e todos que contribuem para a construção de uma sociedade de concretização de sonhos.
     Sou muito grata a todos!

Jaqueline Souza

Sobre a Criminalidade entre os Jovens

   A diminuição da idade penal é uma coisa bastante polêmica,(eu preferia que não existisse criminalidade entre as crianças) porém isso acabou gerando na população uma sensação de impunidade.Ontem à noite, dois garotos perto de minha casa, de aproximadamente quinze anos, brigaram por causa de um celular e um deles foi esfaqueado.Um garoto foi bem mal para o hospital e o outro  que cometeu a violência fugiu e depois voltou por lá como se nada tivesse acontecido.
   A banalidade do motivo ao qual levou a tamanha violência, infelizmente tem se tornado rotina.Durantes todos os dias vemos nos jornais casos de crimes q são cometidos por crianças.O último caso de que o país tem conhecimento é o do estudante de dez anos de uma escola paulista q atirou na professora e depois se matou.
    Vivemos numa incerteza de futuro, num país onde as leis não funcionam, onde políticos que deveriam estar cuidando do futuro da nação, são os primeiros bandidos.A educação que deveria ser tida como prioridade está cada dia mais sucateada.
  O que fazer então? Construir mais cadeias?Diminuir a idade penal? Aderir à pena de morte?
  Infelizmente, sabemos que enquanto não houver uma reforma política séria, as leis criadas não atingem os maiores culpados.As leis existentes hoje, simplesmente servem para penalizar a grande massa populacional que passa fome todos os dias, que é punida por roubar um kilo de feijão para alimentar a família.
 Não estou fazendo uma apologia ao crime, e nem sou adepta do método Robin Hood, mas gostaria que reformas fossem feitas para que todos tenham as mesmas oportunidades,para que as leis de fato funcionem para aqueles que não a respeitam.
  Talvez se esses dois meninos tivessem uma educação de qualidade, se os pais deles tivessem condições de lhes dar uma vida digna, isso não tivesse acontecido.
  Fui instrutora em uma oficina de artes de um deles, exatamente daquele que deu a facada no outro e o conheci quando era mais criança, seus sonhos, seus desejos simples de ter uma casa, de ter uma vida digna como de qualquer pessoa. Lamento muito por esse incidente, lamento por ele, pelo outro garoto, lamento  pelos pais deles, por mim, lamento por todos nós.
   A quem eu devo culpar?
   Será a punição uma solução?
  Acredito que a maior solução para a onda de violências geradas nessa sociedade é o entendimento do povo sobre o assuntos políticos.A falta de senso crítico da população brasileira e a  aceitação da corrupção como meio cultural, a aceitação da criminalidade como prática comum tem gerado em nossos jovens a sensação de que tudo podem fazer pois ¨não pega nada¨, jovens estes que deveriam ser o futuro do país.Que futuro é este que teremos?
 E preciso reação, é preciso cobrar dos governantes o cumprimento de leis, o repasse correto para os estados investirem em melhorias para a população, principalmente os mais carentes, é preciso acabar com essa política assistencialista de migalhas, acabar com a imunidade parlamentar e com tantas outras mazelas que trazem como consequência essa guerra civil que se instalou por todas as regiões.
  O que é prioridade para nós hoje? Partidas de futebol?
Culpemos a todos nós por esse incidente.O nosso descaso está levando o nosso futuro para o ralo.



Jaqueline Souza